





“Infelizmente, eu tenho cara de vilão por natureza”, brinca o ator Rufus Sewell ao relembrar as cenas finais da temporada 3 de A Diplomata. Seu personagem, o vice-presidente Hal Wyler, está posando para fotos com a presidente Grace Penn (Allison Janney) e autoridades do governo britânico. A esposa dele, a embaixadora dos EUA no Reino Unido, Kate Wyler (Keri Russell), observa a cena. Naquele instante, a ficha começa a cair para ela: é bem provável que o marido tenha passado a perna nela e formado uma aliança com a presidente para colocar em prática o que poderia ser considerado um ato de guerra contra o Reino Unido. Kate e o público percebem que isso está estampado na cara de Hal. A tal “cara de vilão”, então, cai como uma luva.
Rufus já interpretou uma longa lista de personagens de caráter duvidoso: o arrogante conde Adhemar de Anjou em Coração de Cavaleiro, o polêmico príncipe Andrew em A Grande Entrevista e Jasper, o ex-namorado manipulador de O Amor Não Tira Férias. Na pele de Hal, Rufus (que foi indicado ao Emmy® de Melhor Ator em Série Dramática por sua atuação nesta temporada) tem a chance de construir um personagem ainda mais complexo. Para isso, ele conta com a showrunner Debora Cahn. “Adoro a ideia de estar nesse limite entre o certo e o errado, porque é um material brilhante de se interpretar”, conta. Como vice-presidente, Hal alcançou um novo patamar de poder e influência, talvez às custas de seus próprios princípios. “Será que essa vai ser a história de alguém que se desconecta de quem acreditava ser? Porque, de fato, não adianta ser o bonzinho se você está do lado de fora, sem poder fazer nada”, explica.
Na temporada 3, a relação entre Hal e Kate (e também entre os EUA e o Reino) entra em uma nova e bem mais complicada fase conforme Hal vai deixando de viver à sombra da esposa. A seguir, Rufus comenta os acontecimentos da temporada e fala sobre o que mais o empolga nessa nova fase de Hal na temporada 4.
Como foi a sensação de ler o roteiro da temporada 3 e descobrir que Hal se tornaria vice-presidente?
Rufus Sewell: Fiquei muito feliz. Não porque eu quero que ele suba na vida de um jeito específico, até porque isso também tem seus perigos. Não é interessante conquistar algo e depois ficar sem saber o que fazer com isso, assim como não é interessante interpretar personagens que estão sempre vencendo. A graça está justamente em fazer o oposto do que as pessoas esperam.
Quando esse novo cargo de Hal foi sugerido no fim da temporada 2, minha primeira preocupação, obviamente, foi: “Nossa, eu não vou ganhar essa, vou?”. Eu não quero ficar preso ao poder. É muito mais interessante quando o personagem precisa se virar, correr atrás de alguma coisa e lutar para conseguir o que quer.
O fato de algo tão fora dos planos ter acontecido acabou por mudar completamente a dinâmica de poder entre Hal e Kate. Foi fantástico. Ele realmente acreditava que aquela era uma grande oportunidade para a esposa. Mas, quando a oportunidade de repente se abre para ele, Hal mergulha de cabeça.

No final da temporada 3, Hal forma uma aliança com Grace, traindo a confiança de Kate. O que você achou dessa decisão?
Rufus: Eu só descobri essa parte da história quando chegamos a esse ponto na série. Não era um plano elaborado, mas sim uma reação que aconteceu dentro da lógica da política. E, além disso, uma reação a uma situação extremamente perigosa. Para mim, é perfeitamente compreensível que Hal tenha seus motivos para fazer o que faz. E, além disso, ele poderia defendê-los com muita, mas muita, convicção.
No entanto, a verdadeira questão é: até que ponto isso é uma traição? Dá para dizer que ele percebeu, e com razão, que contar para a Kate seria perigoso demais e ela poderia acabar em uma situação muito complicada. Acho que é um ótimo final para a temporada e entendo perfeitamente a escolha, porque prepara o terreno para o que vem pela frente. Se continuarmos a história como estamos fazendo, o público vai poder ter acesso a uma perspectiva diferente.

Como foi construir, junto com Keri Russell, a dinâmica tensa entre Hal e Kate nesta temporada?
Rufus: Acho que a Keri costuma dizer a mesma coisa que eu sempre digo: tudo isso vem do roteiro. Eu adoro ser surpreendido, tomar um susto com uma mudança no roteiro, ser pego de surpresa pelo que acontece. A gente confia totalmente na Debora e na equipe.
Desde o começo, eu já tinha uma ideia de quem era o personagem, ou melhor: do jeito como esse personagem falava. Não fico pensando em como a Keri vai fazer determinada cena. Só tento entender o que quero dizer, o que quero fazer, e chego preparado para experimentar. Ela faz o mesmo, e a gente se diverte muito. É como se tudo já estivesse ali no texto, esperando para ganhar vida.
Os roteiros de Debora Cahn conseguem misturar, na mesma cena, suspense político e comédia entre marido e mulher. Como é transitar entre esses dois tons?
Rufus: Esse é o tipo de situação que eu mais gosto: quando tristeza, humor e todas essas emoções existem ao mesmo tempo. Na vida real, as pessoas riem muito mais do que os personagens costumam rir nos dramas.
Quem já passou um tempo em uma sala de espera de hospital sabe que tragédia e comédia acontecem lado a lado. É assim que a vida funciona. Não penso nisso como algo que o ator precisa “interpretar”, como se fosse um estilo. Tento retratar essas situações como elas seriam na vida real.

Quem é fã de A Diplomata amou o episódio “Amagansett”. Você tem alguma lembrança específica das gravações?
Rufus: Ficamos todos muito empolgados quando recebemos o roteiro desse episódio. Parecia uma pequena peça de teatro dentro da série, uma comédia dramática sobre relacionamentos bem ao estilo da década de 1970. O texto é tão inteligente e estruturado que o humor e o drama estão completamente entrelaçados. E o público acha graça porque, para os personagens, aquilo não tem graça nenhuma, sabe?
Todo mundo tinha estudado muito bem as falas, então tivemos liberdade para testemunhar o que acontecia em cena. O mais legal é que cada um de nós prestava atenção nos outros, reagia ao que os outros faziam e deixava a cena acontecer. Foi divertido demais. Mas, ao mesmo tempo, ninguém queria ser a pessoa a estragar aquele ritmo. Foi ali que a pressão começou a aumentar. Eu só pensava que não queria que fosse eu.

Qual aspecto de Hal você tem mais curiosidade de explorar na temporada 4? Sem dar spoilers, claro.
Rufus: Acho que, principalmente depois do final da temporada 3, fiquei ainda mais interessado em explorar a complexidade do Hal. Algumas pessoas conseguiram entender as escolhas dele, enquanto outras decidiram que já sabiam exatamente que tipo de pessoa ele é. Confesso que acho isso um pouco cansativo, mas eu entendo, porque ele é um personagem muito complexo. Não é uma história sobre as origens de um vilão.
O que mais me interessa é entender o que Hal quer e quais são os motivos para ele fazer o que faz, sem nunca esquecer que as pessoas que acabam tomando decisões erradas também pensam desse jeito. Uma pessoa com boas intenções e uma visão própria de quem ela é pode usar esses elementos como desculpa para fazer algo que, no fundo, já queria fazer. Primeiro ela faz, e só depois busca uma justificativa para isso. Eu sou contra essa ideia de julgar tudo na base do oito ou oitenta.





































































































