





Lizzie Borden não foi a primeira assassina dos Estados Unidos, mas pode ter sido a primeira suspeita transformada em celebridade. A jovem da Nova Inglaterra foi a acusada do julgamento do século, pelos assassinatos brutais de seu pai e sua madrasta com um machado em 1892. Mais de 100 anos depois, ela ainda faz parte do imaginário sangrento.
Agora, Lizzie é o foco de Monstro: A História de Lizzie Borden, a mais nova parte da série antológica de Ryan Murphy e Ian Brennan sobre serial killers. Interpretada por Ella Beatty, essa Lizzie é uma sonhadora reprimida por sua criação vitoriana rigorosa, até tudo desmoronar de forma violenta. “Você precisa observar o ambiente ao redor dela. O objetivo da série era trazer o contraste dessa prisão em que as mulheres daquela época e lugar viviam. Mas, principalmente, como se sentia essa garota estranha que amava animais e cresceu em um ambiente repressivo”, diz o co-showrunner Ian Brennan.
A protagonista não conhecia a história real do caso Lizzie Borden antes de fazer parte de Monstro, mas ela logo mergulhou fundo. “Quando surgiu a audição, eu escutei cada podcast de crimes reais que encontrei para aprender sobre o caso. É muito controverso. As pessoas têm opiniões bem diferentes sobre o que pode ter acontecido e sobre a própria Lizzie. Foi algo interessante para mim como atriz, porque pude usar tudo isso como ponto de partida”, conta Ella.
Porém pesquisar foi só o primeiro passo. “Senti que meu trabalho era, principalmente, explorar a personagem que o Ian e o Ryan criaram. Aproveitei todo o material sobre a vida real da Lizzie e levei para a versão fictícia, a mulher que foi inventada para a série. Dei vida à pessoa que a gente imaginou usando detalhes reais para preencher as lacunas”, explica a atriz.
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Ninguém sabe, apesar das evidências indicarem que sim. A série retrata Lizzie como oprimida e abusada por seus pais cruéis, Andrew (Charlie Hunnam) e Abby (Rebecca Hall), que é sua madrasta. Ela encontra uma saída dessa vida quando a família contrata uma nova empregada, Bridget “Maggie” Sullivan (Vicky Krieps), que influencia — e ajuda — Lizzie a cometer o crime que vai definir o resto de sua vida.
Os fatos dos assassinatos de Andrew e Abby Borden foram exagerados ao longo dos anos. Uma rima famosa em inglês aumenta o número de golpes que as vítimas sofreram para 41 e 40, respectivamente. Na verdade, Abby foi atingida 19 vezes e Andrew 11. Ambos ficaram irreconhecíveis na série após Lizzie e Maggie se vingarem do casal por suas crueldades.
“Há uma justaposição entre como era ser uma mulher nessa época, com uma certa fragilidade e beleza física, e esse outro lado intenso, violento, sujo”, comenta Ella. Essa segunda perspectiva, como sugere Monstro, existiu para Lizzie apenas em segredo.
Os fatos concretos do caso Lizzie Borden foram mantidos na série, com algumas modificações. O álibi de Maggie, que estava limpando as janelas, é mostrado como sendo apenas uma fachada para quem passasse em frente da casa; o testemunho de que Lizzie queimou roupas ensanguentadas é encenado como verdade; e a tentativa real de compra de ácido que Lizzie fez (uma das evidências que levaram à sua prisão) é retratado como uma tentativa fracassada de assassinato, com seus pais vomitando um jantar de ostras estragadas.

Como mostra a série, ela foi absolvida no julgamento em 1893. Diversos suspeitos foram considerados: o tio materno de Lizzie, John Morse (interpretado por Joey Pollari em Monstro), o possível filho ilegítimo de seu pai, e até mesmo a irmã de Lizzie, Emma (Billie Lourd). Mas nenhuma dessas possibilidades convenceu o público. Na verdade, muitos vizinhos da jovem continuaram convencidos de que ela era a culpada.
A série também acrescenta outro crime no histórico de Lizzie: o assassinato de Bertha Manchester (Linda Reiter), uma vizinha que maltratava Maggie quando ela era empregada na sua casa. Em Monstro, Bertha é um teste para o ato principal de Lizzie e Maggie. Mas, na vida real, ela foi morta depois do casal Borden, um pouco antes do julgamento de Lizzie começar. O imigrante português Jose Correa de Mello foi condenado injustamente pelo crime.

Não foi bem assim. Na série, a amiga de Lizzie, a atriz Nance O’Neil (Jessica Barden), a orienta durante o julgamento por assassinato. Nance ficou amiga de Lizzie na vida real, mas foi em 1904, mais de uma década após ela ser inocentada. “Quando se faz uma série sobre um crime real, as episódios do julgamento são os que eu mais temo. Eles podem acabar tendo muitos clichês e são os mais difíceis de dramatizar. Julgamentos são processos secos e chatos, mas essa ideia de que a Lizzie conhecia uma atriz, o que era verdade, nos deu um gás”, conta Ian.
Na vida real, Lizzie realmente mostrou sua delicadeza feminina para o júri, mas isso foi encorajado por sua defesa, não por Nance. “Nesse ponto na série, a Lizzie conta a si mesma a história da sua vida e o porquê aquilo tudo precisou acontecer. Era necessário se manter fiel àquela história para enfrentar o julgamento”, explica Ella.
E assim foi feito. Após ser inocentada, Lizzie passou o resto dos seus dias em Fall River, Massachusetts, com sua irmã Emma. Até que a desaprovação dela sobre o relacionamento de Lizzie e Nance separou as irmãs para sempre. A jovem também foi ignorada por sua comunidade e buscou conforto nos amigos da alta sociedade, como Nance. Essa amizade foi muito comentada e pode ter sido o início da especulação do público sobre a sexualidade de Lizzie, abordada na série através da relação com Maggie.


Ian Brennan e Ryan Murphy também trouxeram histórias de gerações anteriores, como fizeram na última temporada, em Monstro: A História de Ed Gein. Nessa temporada, a primeira de Monstro a focar em uma mulher, a noção de monstruosidade feminina é impactante. “Ser uma mulher naquele período nos Estados Unidos era ser reprimida no âmbito sexual, espiritual e emocional. Para mim, usar o espartilho todos os dias ilustrou bem isso: a sensação de estar presa, sem conseguir respirar direito”, conta a atriz.
Uma das inspirações de Lizzie é outra assassina da época dos espartilhos. Maggie lê histórias sangrentas antes de dormir, que a série apresenta em forma de flashbacks, como a Segunda Guerra Mundial em A História de Ed Gein. Aqui, Vicky Krieps interpreta outra figura “inspiradora”: a notória possível serial killer Elizabeth Báthory, uma nobre húngara acusada de se banhar no sangue de virgens.
Mas a série também avança no tempo até a história de Aileen Wuornos (interpretada por Sarah Paulson), uma serial killer que se inspira em Lizzie. Nesse conto, Aileen chega a ficar na casa da família Borden com sua parceira Shelby (Jessie Lee), que lê para ela assim como Maggie fez para Lizzie. “A série aborda o legado da ira feminina e a reação às circunstâncias que enfrentam. Acho que há uma conexão entre as assassinas que o Ryan e o Ian quiseram apresentar e explorar”, diz Ella.
Não há evidência que a verdadeira Aileen teve interesse nos assassinato do casal Borden, mas uma parte da história é verdade: a casa da família em Fall River, Massachusetts, realmente se tornou uma pousada.
Monstro: A História de Lizzie Borden já está disponível na Netflix.


















































